Por que isso importa: A inteligência artificial não é só mais uma ferramenta no seu conjunto de software. Ela está prestes a se tornar o novo princípio organizador das corporações, mudando não só o que fazemos no dia a dia, mas como as empresas serão estruturadas.
O contexto: Nas últimas três décadas, construímos empresas como mosaicos de software especializado. A lógica era clara: cada departamento com seu sistema, cada problema com sua solução. Funcionou, até virar uma grande armadilha.
A grande mudança: Os agentes de IA podem orquestrar os fluxos entre asa plataformas sem integrações manuais, mudando completamente a fundação das companhias
O presente: Estamos vivenciando o grande salto tecnológico capaz de criar negócios inimagináveis. Como tenho pontuado em meus últimos textos e posts, essa dinâmica tem sido mais veloz do que o esperado, empurrando para frente — ou até mitigando — ciclos econômicos tradicionais. A pergunta não é mais "se a tecnologia vai transformar tudo", mas como ela vai reorganizar as estruturas corporativas que conhecemos.
1. A corporação como um mosaico de Software
Pense em qualquer empresa de médio ou grande porte. Ela não é apenas uma entidade jurídica. Ela é, na prática, um agregado de softwares especializados que se comunicam com dificuldade.
O time de vendas, por exemplo, vive no Salesforce. Já o pessoal de finanças, no SAP. O RH com suas ferramentas de sistema de pagamento. O setor de operações embrenhado em sistemas legados. E no meio disso tudo, centenas de planilhas Excel fazendo a ponte entre mundos que não conversam nativamente.
Essa foi a promessa da revolução digital: comprar capacidades prontas. Por que construir um CRM do zero se o Salesforce já resolveu isso para milhares de empresas? A lógica era bastante sedutora.
O resultado foi uma explosão de produtividade individual em cada departamento, mas a coordenação entre sistemas virou um problema permanente. Cada nova ferramenta exigiu APIs customizadas, consultores especializados, meses de integração. E mesmo quando tudo estava conectado, qualquer mudança reverberava em outros dez sistemas.
A empresa virou refém da própria arquitetura que construiu.

2. O custo oculto dessa arquitetura
Existe um custo que não aparece nos demonstrativos financeiros: o custo da rigidez estrutural.
Quando uma empresa decide trocar seu CRM, não está apenas mudando de ferramenta. Está renegociando integrações, reconfigurando dashboards, re-treinando equipes, migrando dados. Isto pode levar meses e custar milhões. O risco de algo se romper no meio do caminho é alto.
O resultado é que as empresas ficam presas aos fornecedores por anos, mesmo quando soluções melhores surgem. A inovação se torna lenta porque qualquer experimento exige aprovações em cascata.
Mas talvez o custo mais invisível seja o da "cola humana". São os funcionários que, todos os dias, traduzem informações entre sistemas que não conversam. O analista que exporta dados do ERP, formata no Excel, e sobe no Power BI. O gerente que copia informações do Salesforce e cola no sistema de logística.
Esses são os orquestradores humanos. Eles existem não porque agregam valor estratégico, mas porque a arquitetura é falha.
Como já mencionei anteriormente a tecnologia vai demolir os negócios que ainda se baseiam em gorduras elevadíssimas. E a integração manual entre sistemas é exatamente esse tipo de gordura.
3. A IA como novo princípio organizador
A inteligência artificial não é "mais uma ferramenta no mosaico". Ela é, potencialmente, um novo princípio de organização empresarial.
A tese central, como Benedict Evans argumenta em sua conversa recente com Ben Thompson, em sua excelente newsletter Stratechery, é que modelos de linguagem podem atuar como camadas universais de interoperabilidade. Um agente de IA pode ler dados do Salesforce, processar informações do ERP, atualizar o Slack, e gerar relatórios — tudo sem APIs customizadas, sem integrações manuais e sem os meses de consultoria.
Isso muda radicalmente a lógica de "comprar vs. construir". Em vez de adquirir softwares rígidos que precisam ser integrados, as empresas podem começar a orquestrar capacidades por meio de agentes inteligentes que coordenam workflows de forma autônoma.
Exemplo prático: Um cliente envia um e-mail reclamando de um atraso na entrega. Hoje, esse e-mail precisa ser lido por um humano, que consulta o sistema de logística, verifica o ERP, atualiza o CRM, e responde. Amanhã, um agente de IA faz tudo isso sozinho, e ainda sugere uma compensação baseada no histórico do cliente.
A transição entre os fluxos tradicionais para agentes adaptativos será transformadora. Dos processos que precisam ser desenhados manualmente para sistemas que aprendem e se auto-organizam.
Já pontuei que a revolução da Era da Inteligência Artificial, os investimentos em infraestrutura física e a reconfiguração das cadeias globais devem moldar as oportunidades da próxima década. Mas aqui está o ponto crucial: os canais pelos quais isso se converte em retorno financeiro exigem revisões constantes. E o canal mais fundamental é justamente a arquitetura corporativa.
4. Do software para os agentes: o que muda na prática
Se essa transição se concretizar, as implicações são profundas.
Primeira mudança: ruptura da dependência dos grandes Vendors (o fim do SaaS como conhecemos). Se os agentes de IA conseguem conversar com qualquer sistema, a dependência de fornecedores específicos diminui. Trocar de ferramenta fica mais barato porque não exige reintegração de toda a arquitetura.
Segunda mudança: hierarquia de valor se inverte. Hoje, o poder está em quem controla os sistemas centrais (o ERP, o CRM e o data warehouse). Amanhã, o poder estará em quem controla a camada de coordenação. Quem tem os melhores agentes orquestrando os fluxos de trabalho capturará um valor desproporcional.
Isso abre uma nova corrida. Será as grandes (Microsoft, SAP, Salesforce, entre outras) conseguirão se manter na dianteira?
Será uma categoria de empresas que ainda nem existe?
Terceira mudança: empresas virarão hordas de agentes. Ao invés de hierarquias rígidas de sistemas, as organizações podem se tornar enxames de agentes especializados que colaboram de forma descentralizada. Cada agente com sua função, todos coordenados por uma camada inteligente.
Isso não é mais ficção científica. Já temos os primeiros exemplos: agentes que negociam automaticamente entre sistemas e os LLMs sendo usados como tradutores universais entre plataformas legadas.
5. Implicações estratégicas: para investidores, executivos e conselhos
Para investidores e executivos
A grande aposta estrutural não é sobre "adotar IA". Mas sim re-arquitetar a corporação em bases mais flexíveis.
Quem controlar a camada de coordenação — a "cola inteligente" — capturará valor desproporcional. Os vencedores serão as empresas que entenderem que a integração é o novo diferencial competitivo.
Para Conselhos: perguntas a serem feitas
Conselhos precisam repensar o que significa governança tecnológica. Não basta aprovar orçamentos de software. É preciso garantir que a empresa pode se reconfigurar rapidamente.
Sobre rigidez arquitetural:
"Se decidíssemos trocar nosso CRM amanhã, quantos sistemas precisariam ser reconfigurados?"
"Temos um mapeamento completo de dependências entre nossos sistemas?"
"Qual percentual do nosso orçamento de TI vai para manutenção vs. inovação?"
Sobre preparação para agentes:
"Nossos dados estão estruturados de forma que um agente de IA possa lê-los sem intervenção humana?"
"Temos APIs documentadas para todos os sistemas críticos, ou dependemos de integrações customizadas?"
"Quantos processos internos exigem que um humano 'traduza' entre sistemas diferentes?"
Sobre dependência de vendors:
"Se um vendor principal descontinuasse o produto, quanto tempo levaríamos para migrar?"
"Nossos contratos de software incluem cláusulas de portabilidade de dados?"
"Temos estratégia de saída documentada para cada sistema crítico?"
Sobre velocidade de adaptação:
"Quanto tempo leva, em média, para incorporar uma nova ferramenta ao nosso workflow?"
"Quantas aprovações são necessárias para testar uma nova solução de IA?"
"Temos um 'sandbox' onde podemos experimentar agentes sem risco operacional?"
A nova responsabilidade: empresas com arquiteturas rígidas vão perder velocidade exponencialmente. Conselhos precisam garantir flexibilidade organizacional.
Valuation por capacidade de reconfigurar: um insight provocativo
Aqui vai uma tese provocativa: o valor de uma corporação no futuro será proporcional à facilidade de reconfiguração da sua arquitetura de software.
Assim como "asset-light" virou vantagem competitiva (Airbnb vs. Marriott), o "software-light" pode ser a próxima fronteira. Empresas que possuem menos software proprietário rígido, mas orquestram melhor, vencem.
O paradoxo do legado: empresas com décadas de investimento em sistemas profundamente integrados podem estar carregando passivos ocultos, e não ativos intangíveis.
Para os investidores, a pergunta "quanto custaria re-arquitetar isso?" pode se tornar tão relevante quanto "quanto faturamento tem?". Capacidade de reconfigurar é o novo moat — ou a nova armadilha.
Volto aqui à máxima que compartilho há anos: negócios construídos para durar precisam gerar valor para todos os participantes da cadeia. E no caso das corporações modernas, isso inclui a capacidade de se adaptar rapidamente sem quebrar.
Última linha
A transformação que vem pela frente é estrutural.
Não se trata de "adotar IA mais rápido". Trata-se de re-fundar a corporação em bases flexíveis.
A janela está aberta.
Quem se mover primeiro, ganhará uma vantagem assimétrica.

Notebook LM | Construído a partir dessa edição da Capital Pulse
João Piccioni
Fundador, Capital Pulse
P.S.: Estou construindo a Capital Pulse como ponte entre o que acontece em mercados globais e no mundo da tecnologia. Se você quer acompanhar essas teses em tempo real, se inscreva na newsletter e me siga nas mídias sociais.
