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Esta semana o mercado entregou algo raro: clareza. Quatro das maiores empresas do mundo reportaram seus resultados no intervalo de 36 horas, e o que emergiu não foi a habitual névoa das projeções cautelosas, mas sim a consolidação de uma tese.

E ela é antiga. David Ricardo a formulou há mais de duzentos anos, mas ela ressurge com nova força toda vez que um recurso se torna escasso e indispensável ao mesmo tempo. A renda da terra: quem controla o substrato pelo qual todos os outros precisam passar retém o poder de cobrar pelo acesso. No século XIX era o trigo, no século XX foi o petróleo e, agora, no século XXI, é o silício.

O Google reportou crescimento de 63% na divisão do Google Cloud. A Amazon revelou um backlog na AWS de US$364 bilhões — o maior já registrado por qualquer provedor de nuvem na história, plurianual, multi-cliente, e materialmente diferente de uma promessa. A Meta elevou suas projeções de investimentos para a faixa dos US$ 125 aos 145 bilhões em 2026, correspondendo a um crescimento de 50% sobre a faixa anterior. Os investidores ficaram nervosos com os números. Mas, no final das contas as ações subiram.

Aqui está o sinal dentro do ruído: quando um CEO anuncia que vai gastar US$ 30 bilhões acima do consenso e o mercado empurra as ações para cima, o significado é claro: reconhecimento. O capital coletivo chegou à mesma conclusão que os números suportam: o investimento, nesse caso, é “aquisição de terrenos”.

Michael Spencer chamou os hyperscalers de “landowners of AI” (proprietários da terra) esta semana. A metáfora é mais precisa do que parece. Se tratam dos donos de data centers, GPUs, cabos e energia. Verdadeiros arrendatários de capacidade para o resto da economia — tanto para as próprias provedoras dos modelos de linguagem, quanto para as startups e/ou para o SaaS corporativo.

Isso sugere que o analista que escolhe apostar todas suas fichas na Cursor ou na Cognition está fazendo a pergunta errada. As verdade é que duas empresas pagam aluguel para o mesmo senhorio.

A confirmação mais definitiva do ciclo veio de um ângulo inesperado. O Pragmatic Engineer publicou dados de quinze empresas — desde aquelas que começando até as de dez mil funcionários — mostrando que o token spend em Claude Code e Cursor cresceu em média dez vezes em seis meses. Em alguns casos, quinze vezes. Uma fintech de cinco mil pessoas reportou desenvolvedores gastando US$ 500 por dia em uma única ferramenta. Um healthcare de 500 pessoas criou um ranking de gastos e declarou dez vezes mais consumo com o mesmo time.

O ciclo fechou. O investimento feito pelos hyperscalers está virando custo operacional das empresas. Cada token consumido por um desenvolvedor usando Claude Code é receita da Anthropic, que se transforma em valor de mercado para a Amazon, e que justifica o backlog de US$364 bilhões da AWS. A cadeia é uma só: e ela funcionou esta semana em tempo real.

Mas nem todo terreno vale igual. A semana revelou uma bifurcação que vai importar nos próximos trimestres. Google e Amazon já aceleram sua monetização: o Google Cloud avançou 63%, backlog plurianual, infrastructure-as-revenue funcionando. Meta e Microsoft ainda estão no modo investidor — gastando mais, justificando menos em receita direta. O mercado os tratou de forma diferente, e vai continuar tratando. A fragmentação “intra-Magnificent 7” é a primeira evidência de que o “todo mundo ganha” da fase de expansão vai dar lugar a um mercado mais seletivo.

O único risco que importa — e que não está precificado — é a alternativa ao terreno. O DeepSeek V4 rodando em hardware Huawei demonstrou que existe um conjunto de alternativa chinesa funcional. Insuficiente ainda para o treinamento de fronteira (a GPU B300 da Nvidia ainda vale US$ 1 milhão no mercado cinza chinês, três a cinco vezes o seu preço), mas é substrato para outras economias. A Anthropic sendo avaliada em mais de US$ 900 bilhões funciona como gatilho para toda a camada de aplicação: Cursor em US$ 9 bilhões, Cognition em US$ 10 bilhões, Granola em US$ 1,5 bilhão todos passam a fazer sentido nesse apreçamento. Se ele rachar porque um modelo open-source derruba o preços, a cadeia retrocede.

Para o portfólio: a tese de senhorios suporta exposição ao conjunto inteiro — silício, nuvem, modelo, aplicação — com viés para beneficiários de segunda ordem que o mercado ainda não reprecificou. A Teradyne, por exemplo, cresceu 86% em receita no primeiro trimestre e o sell-side ainda subestima o pass-through em equipamento de teste. ASML é o único gargalo do EUV. Broadcom apresentou receita US$ 8,4 bilhões na linha de IA em um único trimestre.

O risco não é excesso de capex. O risco é a primeira camada que tropeçar.

Esta foi uma das semanas mais densas em informação de um único ciclo de resultados que já acompanhei. O terreno digital existe, está sendo mapeado em tempo real, e os donos estão colhendo a renda. A pergunta para os próximos trimestres não é se o ciclo é real — é quem vai pagar o aluguel e quem vai cobrar.

Forte abraço,

João Piccioni

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