Imagem gerada por IA - ChatGPT

Com a frase acima, Spencer Neumann, CFO do Netflix, retratou com certa frustração os motivos pelos quais os resultados da linha final do Netflix neste terceiro trimestre do ano vieram abaixo das expectativas de mercado.

A companhia reportou um lucro de US$ 5,87 por ação (ou US$ 2,54 bilhões), cerca de US$ 1,10 abaixo do consenso, e receita líquida de US$ 11,5 bilhões, com crescimento ainda robusto de 17% ano a ano. O problema definitivamente não foi operacional, e sim, jurídico-tributário.

O ponto de atrito veio da decisão do Supremo Tribunal Federal brasileiro, em agosto, que reinterpretou o alcance da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico). O tribunal entendeu que o tributo se aplica também a pagamentos de serviços ao exterior mesmo quando não há transferência de tecnologia — bora tributar!

Na prática, isso criou uma incidência de 10% sobre remessas feitas por empresas brasileiras a suas matrizes ou prestadoras estrangeiras, gerando um custo direto sobre a operação internacional.

No caso da Netflix, a subsidiária brasileira paga à matriz americana pelos serviços de tecnologia e de conteúdo que permitem oferecer assinaturas no país. Até então, uma decisão judicial de 2022 isentava a empresa dessa cobrança. A mudança de entendimento do STF reverteu o cenário e obrigou a companhia a reconhecer retroativamente o passivo referente ao período de 2022 a 2025.

O impacto foi grande: cerca de 80% do valor contabilizado diz respeito aos anos anteriores e apenas 20% ao exercício atual, distorcendo o resultado operacional da companhia.

Sem esse efeito, no entanto, a leitura seria outra…

Não desligue minha Netflix…

Apesar dos ruídos recentes, que envolveram até Elon Musk em uma campanha mais ativa contra alguns produtos da empresa, os números frios e o discurso mostram uma companhia bem estruturada, que aproveita os flancos do mercado e que continua expandindo. O serviço de streaming alcançou recorde de participação em tempo de TV tanto nos Estados Unidos (8,6%) quanto no Reino Unido (9,4%), além de apresentar o seu melhor trimestre da história em receitas de publicidade — está a caminho de dobrar o faturamento de advertising em 2025.

O conteúdo continua surpreendendo: o sucesso global de KPop Demon Hunters se tornou o maior filme da história da plataforma, impulsionando licenciamento de produtos e consolidando a divisão de animação como um novo vetor de crescimento. No ao vivo, o Canelo × Crawford foi o evento esportivo masculino mais assistido do século, com 41 milhões de espectadores.

A empresa ainda avança na diversificação com jogos interativos, eventos esportivos, parcerias com o Spotify e o uso cada vez mais intenso de inteligência artificial generativa para aprimorar produção, recomendação e publicidade.

A tese de investimento revisitada

A resposta dos investidores ao resultado foi negativa (pelo menos, momentaneamente). Mas nada suficiente para abalar a tese de longo prazo. A velocidade de adaptação da companhia e visão de novos nichos de mercado, reforçam o seu apelo frente aos clientes. A estratégia utilizada para o modelo de advertising vem se mostrando vencedora e proporcionando o espaço adequado para parcerias e manutenção de assinaturas pelo público - vale ter em mente, que o modelo de assinatura com ads já é mais rentável para a companhia que o antigo modelo tradicional, cuja dinâmica de geração de caixa era complicada.

O caminho à frente parece claro: os concorrentes ainda não detêm força suficiente para competir de igual para igual com os lançamentos da plataforma (e alguns deles, nem querem exatamente isso); o número de parcerias aumenta a cada dia (o serviço já se tornou um “mimo” das operadoras de internet e de plataformas de e-commerce); e a capacidade de produção de conteúdo se ampliará com o avanço da tecnologia (leia-se IA generativa). O espaço para aumentar a monetização por usuário e escalar ainda mais o negócio é grande.

Em resumo, tirando o “imposto sobre o bom senso”, como alguns brincaram por aí, o case Netflix segue intacto: crescimento rentável, inovação consistente e liderança em um mercado que ainda está longe da saturação. É uma das versões daquelas ações que compõem o capital ano a ano. Porque ao final do filme, o que ninguém quer é desligar a Netflix.

Forte abraço,

João Piccioni, autor da Capital Pulse

Agora temos um email: [email protected].

Mande suas dúvidas, sugestões e críticas para ele! Ficarei feliz em responder!

Reply

Avatar

or to participate

Recommended for you