Por que isso importa agora: Amy Webb entrou no palco do SXSW para decretar o fim do Trend Report — e, sem perceber, construiu uma tese de investimento do início ao fim. As dez convergências que ela mapeou para 2026 têm um denominador comum que ela nunca nomeou: confiança. Esse gargalo é, precisamente, o argumento central da Anthropic.

Ela entrou no palco principal do SXSW vestida de preto, com a banda da Universidade do Texas tocando uma música que não existia. Uma canção inteiramente gerada por inteligência artificial, projetada pela sua equipe para provocar algum embaraço na plateia antes de começar a falar. Só revelou isso depois — e o fez de propósito, como prova do que estava prestes a argumentar. Um teatro alegre, no sentido mais calculado da palavra. Mas o que veio nos 76 minutos seguintes importava mais do que o espetáculo.

Amy Webb, reconhecida por suas visões assertivas sobre o futuro, estava ali para decretar o fim do seu famoso Trend Report — 18 anos de história, cremados com cerimônia. O argumento utilizado era de Joseph Schumpeter: o capitalismo é uma tempestade perpétua, e às vezes é necessário destruir o que você mesmo construiu para abrir caminho para o que o futuro exige. A “Destruição Criativa”, como ele batizou nos anos 1940, não esta apenas relacionado aos negócios que deixam de existir. Se trata também do que precisa acontecer com as suas próprias ideias quando elas deixam de ser instrumentos de transformação e passam a ser muletas. Webb aplicou o conceito a si mesma e ao seu produto mais conhecido, em público. Poucos líderes têm coragem de fazer para isso.

Mas ela não estava ali apenas para enterrar um relatório. Estava ali para apresentar algo novo — e, (talvez) sem perceber, para construir uma tese de investimento do início ao fim.

Para mim, isso ficou claro.

O conceito central que Webb trouxe ao SXSW este ano é o de convergências — e vale entendê-lo com a precisão —, porque muda fundamentalmente como se deve pensar sobre alocação de capital. Uma tendência te diz o que está mudando. Uma convergência te diz o que vai se tornar inevitável antes de parecer inevitável. A diferença não é somente de semântica — é temporal, e é operacional. A janela para agir abre mais cedo. O custo de errar fecha mais rápido. E quando múltiplos sistemas começam a se reforçar mutuamente, a nova realidade se consolida num ritmo que é muito difícil de reverter.

As convergências de Amy Webb | Nano Banana 2 & Capital Pulse

Webb identificou dez convergências para 2026. Apresentou três no palco. Sete ficaram no relatório, disponível para download mediante cadastro no website do Future Today Strategy Group (FTSG). Mas o que me chamou atenção, ao percorrer as dez, não foi a sofisticação de cada uma individualmente, ate porque parte delas já fazem parte do meu discurso. Foi o que elas têm em comum — um fio que as atravessa todas e que Webb não nomeou explicitamente, mas que é a chave para entender onde o valor vai se concentrar na próxima década.

Vou percorrê-las na ordem em que fazem sentido como argumento, não na ordem em que foram apresentadas.

Comecemos pelo substrato físico de tudo isso. A convergência que o relatório chama de Compute Shock parte de uma observação direta: a IA está “arrastando a nuvem” de volta para a Terra. Durante anos, o modelo dominante de infraestrutura de tecnologia foi a computação distribuída em data centers remotos — você acessa, processa, devolve. Funciona bem para cargas de trabalho previsíveis. Não funciona para modelos de linguagem que precisam de latência zero, para agentes rodando em loops contínuos, para sistemas que precisam processar dados em tempo real no ponto onde eles são gerados. O resultado é uma demanda brutal por infraestrutura física local — chips, energia, refrigeração, construção — que o mercado ainda não precificou corretamente como uma mudança estrutural, não cíclica. Os investimentos em acoes do setor, como por exemplo, Quanta Services e Celestica não são apostas somente direcionadas a questão energética tradicional. Elas são apostas na mudança de endereço da física da computação.

Muito vai ser feito de concreto e areia nesse salto tecnológico | Nano Banana 2 & Capital Pulse

Essa pressão sobre o hardware é inseparável da convergência seguinte, que Webb chama de Polycompute — o fim da computação de tamanho único. Por décadas, o paradigma foi: um tipo de chip para tudo. Esse paradigma está se fragmentando em velocidade acelerada. As GPUs sao voltadas para o treinamento de modelos. As TPUs para inferência. Os processadores quânticos para otimização combinatória. O mundo está migrando para um ecossistema de computação especializada e heterogênea, onde a escolha do substrato computacional é em si uma decisão estratégica. Para as empresas que desenvolvem modelos, isso significa que a arquitetura do produto vai cada vez mais determinar em qual hardware ele pode rodar eficientemente — e vice-versa.

É nesse substrato físico em transformação que os agentes de IA operam. A convergência que Webb batizou de Agentic Economy parte da observação de que eles desmontaram a internet que o comércio construiu. Durante três décadas, a lógica da web foi: humano navega, descobre, clica e compra. Essa cadeia assume um consumidor com atenção, intenção e capacidade de escolha. Os agentes não têm nada disso — eles consomem APIs, avaliam documentação, executam decisões em milissegundos e trocam de fornecedor sem fricção se encontrarem melhor relação custo-benefício. O cliente primário do software está migrando de humano para máquina, e essa migração inverte completamente a lógica de produto, de distribuição e de precificação em toda a economia digital. Webb foi direta: a próxima internet não está sendo construída para você. Está sendo construída para agentes — um tópico que abordei recentemente na Capital Pulse.

Agora chegamos às três convergências que ela desenvolveu no palco, e que formam a camada mais visível do argumento.

A primeira é Human Augmentation — o corpo humano como plataforma para upgrades. Os novos exoesqueletos de lazer estendem a capacidade física em 40%. As camas inteligentes otimizam o sono e entregam 30% mais recuperação cognitiva. Os óculos com realidade aumentada que já identificam pessoas em tempo real e que, na próxima iteração, vão sobrepor ao mundo físico uma camada de inteligência contínua — como olhar para tudo ao redor através de um terminal Bloomberg pessoal e permanente, mas para a totalidade da experiência humana, não apenas para os mercados. A implicação que Webb deixou no ar, com toda a desconfortabilidade que merecia: pela primeira vez na história, alguns seres humanos vão ser objetivamente mais capazes do que outros. E a diferença não será de esforço ou talento. Será de acesso ao poder de aumentar a capacidade humana.

A segunda é The New Labor Equation — o emprego deixando de ser o motor do crescimento econômico. O raciocínio de Webb remontou à origem: Adam Smith construiu a lógica do capitalismo moderno sobre uma premissa que nunca foi questionada — o esforço humano como insumo fundamental. Divida o trabalho, especialize o trabalhador, e você obtém produção extraordinária de pessoas comuns. Toda estrutura econômica desde então — salários, base tributária, contrato social, razão para acordar de manhã — foi construída sobre essa premissa. Os agentes a invalidam. Quando uma fábrica puder rodar sem um único funcionário no chão, quando um agente puder escrever, testar e melhorar código milhões de vezes por dia sem fadiga, quando um avatar digital puder conduzir seis horas de live commerce e superar em faturamento o criador humano que deu origem a ele, o trabalho parará de ser o combustível do crescimento. Webb não foi suave na conclusão: escala sem população, produção sem pessoas, output sem salários. A instabilidade econômica que pode vir a seguir teria consequências políticas já conhecidas.

A terceira é o Emotional Outsourcing — a terceirização da regulação emocional humana para máquinas. Webb revelou que entre 25% e 50% dos americanos já usaram LLMs para suporte emocional — plataformas que não foram desenhadas para isso. No Japão, há pessoas legalmente casadas com personagens de IA... Já existem chatbots usando mecânicas de cultos religiosos para criar dependência em escala. E ainda haverá uma empresa que, em algum ponto desta década, vai ser dona de algo que nunca foi possuído antes na história humana: a infraestrutura de como você se sente antes de pensar, de votar, de comprar ou de confiar. O “streaming” emocional da civilização, empacotado como serviço por assinatura.

Essas três convergências visíveis têm cinco irmãs menos óbvias que completam o mapa.

O Programmable Biology é a biologia tornando-se infraestrutura editável. O mesmo CRISPR que editou embriões humanos em 2018 — gerando escândalo e cadeia para o cientista responsável — está sendo usado hoje para reprogramar células adultas, reverter o relógio biológico em tecidos saudáveis, e produzir organismos com características inexistentes na natureza. A fronteira entre o digital e o biológico está sendo apagada em laboratórios que o mercado financeiro ainda classifica como biotech de nicho.

A Living Intelligence, que Webb havia introduzido no SXSW do ano anterior, é a convergência da IA com sensores avançados e biotecnologia em sistemas capazes de sentir, aprender, adaptar e evoluir. O exemplo mais perturbador: computadores feitos de neurônios humanos vivos, que aprenderam a jogar Doom no último ano. A distinção entre inteligência artificial e inteligência biológica está deixando de ser filosófica para se tornar engendrada.

O Autonomous Care é a saúde chegando depois que o algoritmo já interveio. Não é a telemedicina que conhecemos — é o diagnóstico preditivo feito por agentes que monitoram biomarcadores em tempo real e agem antes dos sintomas. Seu médico chega depois que a decisão já foi tomada.

O Corporate Panopticon é a vigilância tornando-se o caminho de menor resistência. À medida que as ferramentas de monitoramento ficam mais baratas e mais integradas à infraestrutura corporativa, a questão deixa de ser "se" as empresas vão monitorar seus funcionários e clientes e passa a ser "em que granularidade." Webb mostrou o protótipo da policial-robô chinesa coberta de câmeras e sensores, alimentando dados em tempo real para um sistema central de vigilância — e disse, com o humor ácido que a caracteriza, que não estava preocupada com aquilo de forma alguma.

Dez convergências. Dez histórias aparentemente distintas sobre tecnologia, biologia, trabalho, emoção e poder. Mas existe um denominador comum que Webb nunca nomeou — ao menos no evento — e que é a chave para entender onde o dinheiro vai se mover.

O gargalo de cada uma dessas convergências é o mesmo: confiança.

Os óculos que vão sobrepor inteligência ao mundo físico precisam de um modelo no qual você confie o suficiente para deixar filtrar a realidade. Os agentes que vão executar em nome das empresas — gerenciar contratos, tomar decisões de alocação, conduzir negociações — precisam de um modelo que o departamento jurídico, o compliance e o conselho consigam auditar, responsabilizar e, se necessário, desligar. A infraestrutura emocional que Webb descreveu só vai ganhar escala se as pessoas e as regulações confiarem o suficiente para deixá-la entrar. A biologia programável só vai se tornar medicina se os pacientes e os governos confiarem nos sistemas que a operam. O Compute Shock que está redefinindo a física da infraestrutura só vai atrair capital institucional de longo prazo se houver previsibilidade e accountability em quem opera essa infraestrutura.

Esse gargalo é, precisamente, o argumento central da Anthropic.

Uma ponte só traz confiança quando os seus alicerces são sólidos |
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A narrativa mais comum sobre a companhia é a da batalha de modelos — Claude versus GPT versus Gemini, benchmarks, vazamentos, rumores de AGI iminente. É a narrativa incompleta. A Anthropic não está competindo apenas por desempenho técnico. Está competindo por uma posição na arquitetura de confiança da próxima era do software — e essa arquitetura é exatamente o que as dez convergências de Webb exigem.

A Microsoft chegou onde chegou não porque o Windows era tecnicamente superior. Chegou porque estava em todo lugar antes que alguém percebesse que precisava estar em todo lugar, e porque os diretores de TI de cada empresa do mundo passaram a enxergar a Microsoft como o parceiro natural para decisões de infraestrutura. Esse relacionamento com o comprador corporativo de tecnologia é o ativo mais subestimado da história recente do setor. E ele não é replicável por capacidade técnica pura.

A função que a Microsoft cumpriu por décadas — tornar trabalhadores do conhecimento produtivos por meio de software — está sendo substituída. O novo paradigma não começa no Windows. Começa num prompt. E o novo parceiro natural para quem precisar explicar ao conselho como seus agentes tomarão decisões, como a biologia dos seus produtos vai ser operada e como a infraestrutura emocional dos seus clientes sera gerida, não vai ser quem tiver o modelo mais capaz, mas sim quem tiver o modelo mais auditável, mais controlável, mais responsavel.

O documento da Anthropic, o Constitutional AI, não é um artigo acadêmico. É um produto para empresas embalado em linguagem filosófica. É o argumento que os C-suites precisam ouvir antes de assinar qualquer contrato de agentes autônomos. E enquanto a OpenAI ainda decide — às vezes na mesma semana — se vai ou não desenvolver armas, se vai ou não fazer vigilância doméstica, a Anthropic está apostando sistematicamente no conceito de que ela é a parceira na qual uma organização séria pode confiar sem titubear.

Eu tenho posição nessa tese. Participei da última rodada de investimento. Coloco isso aqui não como conflito de interesse — ate porque, pouco importaria — mas como o que de fato é — “skin in the game”, outros diriam.

A IA Constitucional da Anthropic | Nano Banana 2 & Capital Pulse

Seria desonesto, contudo, não nomear as forças que jogam contra.

Distribuição não é opcional, e a Anthropic ainda não tem a sua. A Microsoft tem décadas de relação com o comprador corporativo de tecnologia. Ciclos de procurement, compliance, licenciamento por volume — nada disso se herda por ter o melhor modelo ou o argumento mais elegante sobre confiança. Vantagens técnicas, por sua vez, não se acumulam nessa indústria: o que parece um fosso hoje tende a ser areia em 6 a 12 meses. E a estrutura de capital carrega uma dependência real — a Anthropic opera sobre infraestrutura da Amazon, que investiu US$ 4 bilhões e captura margem nos dois lados da equação.

Esses são riscos reais. Mas são, todos eles, riscos de execução — não riscos de tese. A tese em si, de que a camada de inteligência vai substituir a camada de software como centro de criação e captura de valor nas empresas, e de que o gargalo dessa transição é confiança, está correta. Webb demonstrou isso convergência por convergência, sem nunca articular o argumento de investimento que estava construindo.

A questão não é se alguém vai ocupar esse espaço. É quem vai chegar lá com a combinação certa de capacidade técnica, confiança institucional e timing. E essa janela — como toda convergência bem identificada — fecha antes de parecer que vai fechar.

Webb encerrou sua palestra com um aviso que merece ser copiado para qualquer processo de alocação de capital: "Tempestades não têm desfechos predeterminados — mas quem ignora os sinais e volta para dentro de casa dizendo que estão exagerando vai ser encontrado do lado errado quando o vento chegar."

O céu está verde. As dez convergências estão se movendo. A questão que fica — e que peço que você leve para a sua próxima revisão de portfólio — é simples: no que você está investido hoje, qual é a sua posição no mapa que ela desenhou?

Forte abraço,

João Piccioni

Fundador, Capital Pulse

P.S.: Estou construindo a Capital Pulse como ponte entre o que acontece em mercados globais e no mundo da tecnologia. Se você quer acompanhar essas teses em tempo real, você está no lugar certo.

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