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Já imaginou cruzar o Atlântico no tempo de um voo doméstico? São Paulo-Miami em 4h20 (e não em 8h), Nova York-Londres em 3h30, em vez de 7h. Jantar em Paris e estar de volta para reuniões em Nova York no dia seguinte.

Parece ficção, mas já foi realidade — até 2003, quando o Concorde fez seu último voo.

Por que isso importa: Enquanto a aviação comercial estacionou na mesma velocidade há décadas, uma startup está tentando fazer algo que parecia impossível — ressuscitar viagens supersônicas para passageiros. Mas desta vez, sem os erros fatais que mataram o precursor.

O grande objetivo

Blake Scholl, fundador da Boom Supersonic, quer reduzir pela metade o tempo de voos internacionais.

A promessa: Tornar aviões supersônicos economicamente viáveis — algo que o icônico Concorde passou longe de conseguir.

Por que o Concorde fracassou?

O engenhoso Concorde voou de 1976 a 2003. Mas foi um verdadeiro desastre financeiro e nunca trouxe lucro.

Os erros estruturais:

Materiais do passado: Liga de alumínio cara e pesada, quando materiais compósitos já existiam. A fuselagem aquecia tanto (127°C a Mach 2) que o avião se expandia de 15 a 25cm em voo.

Frankenstein aéreo: Motores turbojatos Olympus 593 adaptados de bombardeiros, com pós-combustão barulhenta e ineficiente. Consumia 25.700 litros/hora — 5x mais que um 747 por passageiro.

Caos de produção: Projeto dividido entre britânicos e franceses criou pesadelo logístico. Sindicatos divergentes, padrões diferentes, governos brigando por controle. Peças produzidas em dois países, montagem final em dois locais. Burocracia em duplicata.

O golpe fatal: O estrondo sônico. Proibido sobre terra na maioria dos países, o Concorde ficou limitado a rotas transatlânticas. Das milhares de rotas potenciais, apenas poucas eram viáveis.

O resultado: Apenas 20 unidades produzidas. Ticket de US$ 12.000 (ida). Capacidade de 100 passageiros. Alcance limitado de 6.300 km. Um modelo de negócio que nunca fechou.

Concorde pousando no Aeroporto Internacional de Kansai em 1994. Wikimedia Commons.

O momento decisivo

Em janeiro de 2025, a Boom quebrou a barreira do som com o XB-1, seu primeiro protótipo. Foi o primeiro jato supersônico desenvolvido de forma independente desde o Concorde.

O detalhe crítico: Durante esses voos, a empresa demonstrou silenciosamente algo revolucionário — a tecnologia "Boomless Cruise", que permite voo supersônico até Mach 1,3 (1,3 vezes a velocidade do som) sem o estrondo sônico audível no solo.

Isso resolve o problema fatal do Concorde: as restrições de voo sobre terra que mataram o modelo de negócio.

Como a Boom está fazendo diferente

Materiais modernos: Compósitos de fibra de carbono — mais leves, mais fortes, mais baratos que o alumínio do Concorde.

Motor próprio: Depois de ser rejeitada por todos os grandes fabricantes, desenvolveu o Symphony: um turbofan de médio bypass, sem pós-combustão, cerca de 75% mais eficiente que os motores do Concorde.

Vantagem de empresa privada: Zero burocracia governamental. Sem sindicatos brigando. Sem fronteiras dividindo a produção. Uma fábrica gigante de 37 mil metros quadrados em Greensboro, Carolina do Norte.

Capacidade e alcance: 64-80 passageiros, alcance de 4.890 milhas náuticas — cerca de 25% maior que o Concorde. Isso abre mais de 600 rotas viáveis, não apenas as transatlânticas.

Economia: Custos operacionais projetados 75% menores que o Concorde. Capaz de operar com 100% de combustível sustentável (SAF).

A validação do mercado

Três grandes companhias aéreas já comprometeram dinheiro:

  • United Airlines: 15 aeronaves + 35 opções de compra.

  • American Airlines: 20 aeronaves + 40 opções (com depósito não-reembolsável).

  • Japan Airlines: 20 pré-encomendas.

Total: Mais de US$ 20 bilhões em potencial de receita futura.

Derek Kerr, CFO da American: "Olhando para o futuro, a viagem supersônica será uma parte importante de nossa capacidade de servir nossos clientes."

Overture. Boom Supersonic

O pivô estratégico inesperado

Aqui a história fica interessante.

Depois de ser rejeitada por todos os grandes fabricantes de motores, a Boom decidiu desenvolver o próprio — o Symphony. E então fez algo brilhante: adaptou o núcleo desse motor para criar turbinas industriais de 42 MW para data centers de IA.

O resultado: Em dezembro de 2025, fechou contrato de US$ 1,25 bilhão com a Crusoe Energy. As entregas começam em 2027 — antes do avião Overture entrar em serviço.

A genialidade da jogada: Gerar receita enquanto ainda desenvolve o produto principal. Validar o motor em condições reais. Financiar o desenvolvimento sem depender exclusivamente de investidores.

O Concorde nunca teve essa flexibilidade. Preso entre governos, sem possibilidade de pivôs estratégicos, foi de fracasso financeiro até sua aposentadoria forçada.

As peças do quebra-cabeça

Tecnologia: Materiais modernos (fibra de carbono), motores eficientes (sem pós-combustão), sistemas digitais. A tecnologia existe e não é mais ficção científica.

Regulação: Em junho de 2025, o governo Trump revogou a proibição de voos supersônicos sobre terra nos EUA. A barreira regulatória mais significativa caiu.

Infraestrutura: Fábrica concluída. Capacidade: 33 aeronaves/ano (66 com segunda linha).

Mercado: Mais de 600 rotas viáveis. Mercado endereçável superior a 1.000 aeronaves. Pesquisas apontam que 87% dos passageiros premium estariam dispostos a trocar de companhia para ter acesso a voos supersônicos.

O fundador improvável

Blake Scholl não tem formação em engenharia aeroespacial. Começou na Amazon, depois fundou startups de tecnologia. Passou um ano aprendendo os fundamentos de design aeroespacial antes de fundar a Boom.

O CEO e fundador Blake Scholl

Sua filosofia: "Habilidades e conhecimento são mutáveis, paixões não são. É muito mais poderoso seguir suas paixões e deixar seu conhecimento seguir para onde sua paixão te leva."

Ele absorveu a obsessão por clientes da Amazon e aplicou a mentalidade de crescimento do Vale do Silício à engenharia aeroespacial.

Sua transparência: "Não há garantia de sucesso aqui — estatisticamente, o fracasso é o resultado mais provável — mas certamente está ao alcance."

A realidade dura

A Boom levantou US$ 900 milhões e está avaliada em US$ 1,5 bilhão. Mas estima-se que precise de US$ 10-15 bilhões adicionais para completar o desenvolvimento do Overture.

Isso não é incomum em tecnologia aeroespacial avançada. O Boeing 787 custou US$ 32 bilhões para ser desenvolvido. Mas a Boeing era uma gigante estabelecida, não uma startup.

O que vale observar

  • 2026: Início dos testes do motor Symphony no Colorado

  • 2027: Primeiras entregas da turbina Superpower

  • 2029: Entrada em serviço projetada do Overture

A grande questão: A receita das turbinas industriais será suficiente para sustentar o desenvolvimento até o Overture voar? Ou será mais um capítulo na longa história de sonhos supersônicos que não decolaram?

Reflexão final

Gosto da proposição de Scholl. E não por romantismo tecnológico, mas porque as longas viagens intercontinentais continuam sendo uma dor sem solução real há décadas. Passamos 50 anos otimizando conforto, entretenimento a bordo, programas de milhagem — tudo menos o que realmente importa: o tempo.

A proposta tecnológica aqui é viva e contém um design elegante. A solução do ruído via Boomless Cruise não é gambiarra: é física aplicada com inteligência. Materiais compósitos e motores sem pós-combustão são o estado da arte. O pivô para turbinas industriais é puro pragmatismo financeiro.

E há um efeito secundário que me interessa particularmente: o impacto no setor de turismo. Se a Boom funcionar, não estamos falando apenas de executivos cruzando o Atlântico. Estamos falando de redefinir o conceito de "destino acessível". Tóquio para um fim de semana. Sydney para uma semana de trabalho remoto. Patagônia sem sacrificar metade das férias no deslocamento.

O Concorde falhou porque nasceu amarrado — aos governos, aos materiais obsoletos, aos designs adaptados e as burocracias duplicadas. Foi uma maravilha de engenharia aprisionada por estruturas do século XX.

A Boom tem vantagens estruturais que o Concorde nunca teve. Mas também carrega os riscos clássicos de deep tech: capital intensivo, ciclos longos, dependências tecnológicas múltiplas. E um fosso de US$ 10-15 bilhões entre "tecnicamente possível" e "comercialmente disponível".

O pivô para turbinas industriais compra tempo e valida engenharia. Mas é suficiente? A história de aviação supersônica está cheia de projetos que eram "quase viáveis"...

Talvez a pergunta mais interessante seja: se não agora, quando? A tecnologia existe e o mercado quer. As regulações estão caindo. Se a Boom não conseguir com todas essas vantagens, talvez a aviação supersônica comercial seja realmente um sonho do século XX que não pertence ao XXI.

Mas eu aposto que Scholl está certo. Não porque tenho certeza — ninguém pode ter. Mas porque algumas apostas valem a pena fazer, mesmo quando as probabilidades não favorecem. E comprimir distâncias sempre foi uma das apostas mais transformadoras da civilização.

Fiquemos de olho.

A aposta do século XXI

Forte abraço!

João Piccioni

PS: Se você chegou até aqui, notou a mudança no estilo de escrita? Meu objetivo é trazer para você mais fluidez, informações interessantes e a minha visão sobre as oportunidades à frente.

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Mande e-mail para [email protected].

Até semana que vem!

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